{"id":153,"date":"2018-05-15T16:02:57","date_gmt":"2018-05-15T19:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/dgospel.com.br\/portal\/?p=153"},"modified":"2018-05-15T16:02:57","modified_gmt":"2018-05-15T19:02:57","slug":"teologia-como-poetica-e-ciencia-da-revelacao-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dgospel.com.br\/portal\/index.php\/2018\/05\/15\/teologia-como-poetica-e-ciencia-da-revelacao-de-deus\/","title":{"rendered":"Teologia como Po\u00e9tica e Ci\u00eancia da Revela\u00e7\u00e3o de Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">O Evangelho n\u00e3o traz uma doutrina mediante a qual o indiv\u00edduo \u00e9 salvo se compreend\u00ea-la, mas uma revela\u00e7\u00e3o de Deus. A revela\u00e7\u00e3o divina trouxe ao mundo uma a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica que se revela na hist\u00f3ria, e salva a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mero conhecimento sobre Deus ou um pacote de doutrinas, mas experi\u00eancia salv\u00edfica feita no interior da vida e da hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong> A teopo\u00e9tica grega<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O termo\u00a0teologia\u00a0origina-se do pensamento grego. O voc\u00e1bulo \u00e9 formado por dois substantivos,\u00a0the\u00f3s\u00a0(qeo,j) e\u00a0l\u00f3gos\u00a0(lo\u00b4\u00b4,goj), e significa \u201cdiscurso sobre Deus\u201d. Os primeiros te\u00f3logos entre os gregos foram os poetas, especialmente aqueles que, como Hes\u00edodo em sua\u00a0Teogonia, discursaram em verso e prosa a respeito da cria\u00e7\u00e3o do mundo (mito cosmog\u00f4nico) e da g\u00eanese dos deuses gregos (mito teol\u00f3gico). Lembremos que os te\u00f3logos alexandrinos, Clemente e Or\u00edgenes, entendiam a filosofia grega como uma revela\u00e7\u00e3o racional de Deus para os helenos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Essa remota origem da palavra esclarece algumas quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas a respeito do saber teol\u00f3gico entre os gregos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Primeiro, a teologia era um discurso criativo que procurava compreender o mist\u00e9rio que circunda o cosmos, a vida. Segundo, a teologia era uma narra\u00e7\u00e3o engenhosa e imaginativa que explicava a origem das divindades. Terceiro, a teologia era uma narra\u00e7\u00e3o contextualizada com a cultura e a vida, que explicava o sucesso e o fracasso dos homens. Quarto, a teologia era um saber que envolvia o conhecimento, os g\u00eaneros, os artif\u00edcios da genialidade e linguagem humana. E, por \u00faltimo, a teologia era um conhecimento mistag\u00f3gico,\u00a0que conduzia o homem para dentro do mist\u00e9rio, da compreens\u00e3o do s\u00edmbolo, da sacralidade do mundo, dando-lhe uma resposta a respeito do\u00a0fim \u00faltimo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para os primeiros te\u00f3logos po\u00e9ticos, n\u00e3o existia uma diferen\u00e7a entre teologia e poesia (teopo\u00e9tica) ou teologia e antropologia: Falar dos deuses implicava em discursar poeticamente sobre os homens. A oralidade e, depois, a literatura, eram os principais instrumentos para especular e narrar o saber racional a respeito do divino e suas rela\u00e7\u00f5es com os homens da p\u00f3lis.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Cedo na hist\u00f3ria do pensamento grego, os te\u00f3logos po\u00e9ticos souberam que o mundo dos deuses (theo\u00ed) era distinto do universo dos mortais (thanato\u00ed), de tal modo que os primeiros s\u00e3o imortais (ath\u00e1natoi) e bem-aventurados (euda\u00edmones), enquanto os homens s\u00e3o ef\u00eameros (eph\u00e9meroi) e infelizes (tala\u00edporoi).<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong> Conceito B\u00edblico<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O termo teologia n\u00e3o aparece nas Escrituras. Contudo, alguns textos b\u00edblicos empregam\u00a0l\u00f3gos\u00a0e\u00a0the\u00f3s\u00a0para se referirem \u00e0 palavra ou or\u00e1culo de Deus. Entre os v\u00e1rios exemplos significativos do uso desses voc\u00e1bulos nas p\u00e1ginas do Novo Testamento encontramos: em Lc 8.21 (ton\u00a0logon\u00a0tou\u00a0theou), At 17.13 (ho l\u00f3gos tou theou), Rm 3.2 (ta\u00a0l\u00f3gia\u00a0tou\u00a0theou) e 1Pe 4.11 (hos\u00a0l\u00f3gia theou).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Na primeira per\u00edcope, a Palavra de Deus \u00e9 a mensagem do Reino; na segunda, a prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica; na terceira, o c\u00e2non das Escrituras Hebraicas; e na \u00faltima, resume os significados anteriores.\u00a0Nesta acep\u00e7\u00e3o do voc\u00e1bulo, o\u00a0te\u00f3<em>logo<\/em>\u00a0\u00e9 tanto o que fala a Palavra de Deus quanto aquele a quem Deus fala (<em>te\u00f3<\/em>logo). Confunde-se assim, com os\u00a0<em>ish ha Eloh\u00eem<\/em>\u00a0(homem de Deus) da antiguidade b\u00edblica. Todavia, h\u00e1 tantas teologias que \u00e9 dif\u00edcil saber quando realmente Deus fala por meio de um te\u00f3logo!\u00a0Eclesiasticamente, a Teologia \u00e9 definida como um discurso racional da revela\u00e7\u00e3o de Deus, dos fundamentos da f\u00e9, dos credos crist\u00e3os ou da tradi\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li style=\"font-weight: 400;\"><strong> Teologia e Revela\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Falar da revela\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 discursar da rela\u00e7\u00e3o de Deus com o homem. \u00c9 o Senhor quem toma a inciativa de se autorevelar. Assim a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 autocomunica\u00e7\u00e3o livre, graciosa e amorosa que Deus faz de si e de sua vontade aos homens. Eis, portanto, o objeto formal da Teologia: Deus que se revela para salvar e salva ao se revelar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A teologia crist\u00e3 entende, por conseguinte, que somente \u00e9 poss\u00edvel falar (l\u00f3gos) sobre Deus (the\u00f3s) a partir da revela\u00e7\u00e3o que Ele pr\u00f3prio faz de si mesmo e de suas obras ao homem. \u00c9 Deus quem se revela e se comunica com o homem e ao se revelar torna-se em parte conhecido, em parte absc\u00f4ndito. \u00c9 poss\u00edvel pela raz\u00e3o, n\u00e3o obstante aos seus limites, se chegar ao conhecimento de Deus, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel restringi-lo \u00e0s categorias racionais e lingu\u00edsticas. Deus, que \u00e9 Mist\u00e9rio, se revela a si mesmo e mesmo ao se revelar permanece Mist\u00e9rio. A revela\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o desvenda o mist\u00e9rio, mas o confirma.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A revela\u00e7\u00e3o do nome de Deus a Mois\u00e9s em \u00cax 3.13-15, por exemplo, tem elementos do mist\u00e9rio que circunda a manifesta\u00e7\u00e3o que Jav\u00e9 faz de si mesmo. O Deus que se mostra, afirma P. Ricouer,\u00a0\u00e9 um Deus escondido e a quem pertencem as coisas ocultas.8\u00a0Deus se revela por meio de um nome\u00a0Inomin\u00e1vel! Se na cultura judaica primitiva conhecer o nome de um personagem tornava-o dispon\u00edvel ao talante do conhecedor; a revela\u00e7\u00e3o do Nome a Mois\u00e9s demonstrava que o Senhor n\u00e3o estaria \u00e0 merc\u00ea da linguagem e disposi\u00e7\u00e3o de seus adoradores. \u201cEu Sou\u201d (Ehy\u00e9h asher ehy\u00e9h) n\u00e3o \u00e9 um nome que desvela sua natureza e ess\u00eancia incomunic\u00e1vel, mas que o coloca como o Deus da Reden\u00e7\u00e3o do passado, do presente e do futuro. O que Ele \u00e9 est\u00e1 oculto na ess\u00eancia do que o Nome significa. H\u00e1, portanto, um segredo e uma comunica\u00e7\u00e3o, um mist\u00e9rio e um desvelamento.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A teologia, por conseguinte, estuda n\u00e3o apenas a respeito de Deus, mas tamb\u00e9m de sua revela\u00e7\u00e3o e relacionamento com o homem. Afinal, a nossa experi\u00eancia com Deus tamb\u00e9m \u00e9 a experi\u00eancia de Deus conosco &#8211; o Emanuel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Deste modo, o conceito que se tem de Deus reflete na explica\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 a respeito do homem. Heidegger entendia que o mundo \u00e9 uma conex\u00e3o de coisas finitas criadas por Deus e somente a partir do conceito de Deus \u00e9 poss\u00edvel discutir e deduzir o que pertence ao ente na medida em que ele \u00e9 cria\u00e7\u00e3o divina. A origem do homem est\u00e1 em Deus e o sentido da exist\u00eancia e da natureza real do ser humano encontra-se respectivamente nEle. Neste aspecto, a teologia cumpre uma fun\u00e7\u00e3o importante no \u00e2mbito das ci\u00eancias humanas, porquanto acentua a import\u00e2ncia e necessidade de se conhecer a Deus como caminho para o estabelecimento de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria, pois, como afirma Andr\u00e9s Queiruga, que \u201cpelo esquecimento de Deus, a pr\u00f3pria criatura torna-se obscura\u201d. A obscuridade do homem torna-se luz na revela\u00e7\u00e3o que Deus faz de si, de sua obra e vontade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esdras Costa Bentho<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pedagogo, Mestre e Doutorando em Teologia -PUC RJ<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Coordenador de Teologia da FAECAD.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Evangelho n\u00e3o traz uma doutrina mediante a qual o indiv\u00edduo \u00e9 salvo se compreend\u00ea-la, mas uma revela\u00e7\u00e3o de Deus. 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