{"id":16847,"date":"2023-08-28T15:23:52","date_gmt":"2023-08-28T18:23:52","guid":{"rendered":"http:\/\/dgospel.com.br\/portal\/?p=16847"},"modified":"2023-08-28T15:23:54","modified_gmt":"2023-08-28T18:23:54","slug":"psicologa-lanca-livro-sobre-a-saude-pastoral-reconhecimento-da-humanidade-dos-pastores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dgospel.com.br\/portal\/index.php\/2023\/08\/28\/psicologa-lanca-livro-sobre-a-saude-pastoral-reconhecimento-da-humanidade-dos-pastores\/","title":{"rendered":"Psic\u00f3loga lan\u00e7a livro sobre a sa\u00fade pastoral: \u2018Reconhecimento da humanidade dos pastores\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p>A psic\u00f3loga&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/guiame.com.br\/colunistas\/clarice-ebert\/o-grito-da-alma-precisa-ser-escutado.html\">Clarice Ebert<\/a><\/strong>&nbsp;acaba de lan\u00e7ar o livro &#8220;Sa\u00fade Pastoral: reflex\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o&#8221;, no qual aborda quest\u00f5es referentes \u00e0 sa\u00fade de quem exerce a poim\u00eanica, ou seja, a\u00e7\u00e3o ou atitude de pastorear.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista exclusiva ao&nbsp;<strong>Guiame<\/strong>, a escritora e colunista deste portal falou amplamente sobre sua obra, que aborda temas pr\u00f3prios do trabalho e das rela\u00e7\u00f5es pastorais.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro busca tamb\u00e9m, em suas mais de duzentas p\u00e1ginas, contribuir para a sa\u00fade pastoral, numa abordagem preventiva e fundamentada no reconhecimento da humanidade de pastores e pastoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Terapeuta familiar e de casais, vinculada ao Instituto Phileo de Psicologia, Clarice Ebert, que atua em parceria com seu marido, o pastor Claudio Ernani Ebert, fala a seguir sobre os v\u00e1rios aspectos de seu novo livro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Guiame: Quais s\u00e3o os principais temas abordados no livro &#8220;Sa\u00fade Pastoral: reflex\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o&#8221;?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Clarice Ebert:<\/strong>&nbsp;O livro est\u00e1 organizado em tr\u00eas partes, com seis t\u00f3picos em cada parte. A primeira visa apresentar as interfaces da teologia crist\u00e3 e da psicodin\u00e2mica do trabalho direcionadas \u00e0 sa\u00fade e qualidade de vida no trabalho pastoral. Busca-se refletir sobre o contexto crist\u00e3o evang\u00e9lico, a fun\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as m\u00edticas, a teologia e seu papel no trabalho pastoral, a comunidade eclesi\u00e1stica, a voca\u00e7\u00e3o pastoral, e a psicodin\u00e2mica e a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho em seus conceitos propositivos para melhor sa\u00fade de trabalhadores em qualquer contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte apresenta a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho pastoral e suas caracter\u00edsticas, levando em conta as tarefas\/fun\u00e7\u00f5es pastorais e sua execu\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais com os parceiros e as parceiras ministeriais, as exig\u00eancias mais recorrentes no trabalho pastoral, o conte\u00fado simb\u00f3lico no significado da execu\u00e7\u00e3o das tarefas pastorais, o sentido de realiza\u00e7\u00e3o atribu\u00eddo ao exerc\u00edcio pastoral, e a viv\u00eancia de sofrimento no trabalho pastoral.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira parte as reflex\u00f5es se articulam em torno das principais estrat\u00e9gias de media\u00e7\u00e3o do sofrimento utilizadas por pastores e pastoras. Quais s\u00e3o as mais utilizadas? Elas favorecem a sa\u00fade ou n\u00e3o? Quais seriam as mais favor\u00e1veis diante dos perigos existentes no trabalho pastoral? E a fam\u00edlia, como fica? As misturas entre minist\u00e9rio e fam\u00edlia interferem? Certamente que sim, mas como estabelecer as rela\u00e7\u00f5es entre igreja e fam\u00edlia para minimizar as tens\u00f5es? Essas s\u00e3o algumas reflex\u00f5es propostas nessa parte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Qual foi a motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o deste livro e por que a escolha sobre a sa\u00fade dos pastores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;O interesse pelo tema sa\u00fade pastoral vem de longa data. Teve seu principal despertamento pela viv\u00eancia em contexto eclesi\u00e1stico, em especial junto a pastores, pastoras e lideran\u00e7as. Na atua\u00e7\u00e3o nesse contexto, por mais de quarenta anos, em parceria com meu marido Claudio Ernani Ebert, que \u00e9 pastor, foi poss\u00edvel conhecer numerosas situa\u00e7\u00f5es enriquecedoras e edificantes, mas tamb\u00e9m outras tantas extremamente adoecedoras. Al\u00e9m da experi\u00eancia pessoal nesse contexto, foram acessadas muitas hist\u00f3rias de pessoas inseridas na \u00e1rea pastoral, por meio de atendimentos cl\u00ednicos, aconselhamentos, mentorias, pesquisas, palestras, cursos e workshops.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: E como foi o contato com tais experi\u00eancias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;Deparar-me com as discrep\u00e2ncias entre hist\u00f3rias alegres, angustiantes e desesperadoras gerou interesse por estudos, especialmente buscando entender as din\u00e2micas do contexto do exerc\u00edcio do minist\u00e9rio pastoral, como tamb\u00e9m para encontrar caminhos poss\u00edveis para interven\u00e7\u00f5es preventivas para melhor sa\u00fade das pessoas que trabalham nesse contexto. Quanto mais estudo sobre esse assunto, mais percebo a relev\u00e2ncia de se abordar a tem\u00e1tica da sa\u00fade pastoral com sensibilidade, respeito, singularidade, empatia e solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Quais s\u00e3o os principais desafios enfrentados pelos pastores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental e emocional?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:&nbsp;<\/strong>Os desafios s\u00e3o muitos e possivelmente ultrapassam os apontados no livro. Por isso, \u00e9 importante que muitas pesquisas ainda sejam realizadas nessa tem\u00e1tica. No livro, sinalizam-se, alguns perigos evidentes que n\u00e3o deveriam ser negligenciados. Em primeiro lugar seriam os desafios de ordem pessoal, que podem incluir desajustes conjugais e familiares, desorganiza\u00e7\u00e3o financeira, do tempo e da agenda, insights pobres, car\u00e1ter duvidoso, mitomania, personalidade narc\u00edsica e\/ou com tra\u00e7os psicop\u00e1ticos, falsa espiritualidade e culpa. Mas, os desafios v\u00e3o para muito al\u00e9m desses. Ainda existem os desafios na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho pastoral, em face as rela\u00e7\u00f5es interpessoais e a divis\u00e3o das tarefas pastorais. Al\u00e9m desses desafios ainda h\u00e1 o perigo da ideologia do sucesso, da desumaniza\u00e7\u00e3o, das expectativas pela lideran\u00e7a m\u00edtica e as influ\u00eancias da p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n\n\n\n<p><img src=\"https:\/\/thumbor.guiame.com.br\/unsafe\/smart\/https:\/\/media.guiame.com.br\/archives\/2023\/08\/25\/2169510207-clarice-ebert.jpg\" alt=\"\" width=\"600\"><sup>Clarice Ebert e seu livro \u201cSa\u00fade Pastoral\u201d. (Foto: Instagram\/Clarice Ebert)<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Quais as estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o para as \u2018doen\u00e7as psicol\u00f3gicas\u2019 que acometem os pastores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;Segundo as pesquisas apresentadas no livro, as estrat\u00e9gias mais comumente utilizadas por pastores, pastoras e l\u00edderes para lidar com o sofrimento, s\u00e3o as estrat\u00e9gias de distanciamento. Dentre elas as atividades compensat\u00f3rias, o individualismo, o isolamento e a espiritualidade. Os distanciamentos seriam como v\u00e1lvulas de escape em busca de um f\u00f4lego novo, um ref\u00fagio para renovar as for\u00e7as e energias, assumindo o car\u00e1ter essencial de compensar o sofrimento, para posteriormente retornar \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o na realidade geradora de tens\u00e3o. Essas estrat\u00e9gias podem ser boas e funcionar por um tempo, mas n\u00e3o se mant\u00e9m ao longo prazo como preven\u00e7\u00e3o ao adoecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: E quais seriam as melhores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;As estrat\u00e9gias mais favor\u00e1veis seriam as de mobiliza\u00e7\u00e3o coletivas. Nelas busca-se modificar aquilo que faz sofrer junto ao coletivo do trabalho pastoral, numa socializa\u00e7\u00e3o do sofrimento pelo di\u00e1logo, objetivando a constru\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o, confian\u00e7a e solidariedade. Essa perspectiva tem uma import\u00e2ncia especial para o contexto pastoral, pois as Escrituras nos orientam um funcionamento de organismo vivo, como Corpo de Cristo, onde a partilha e o cuidado s\u00e3o m\u00fatuos. N\u00e3o seria um lugar de pessoas apenas reunidas para elaborar estrat\u00e9gias do bom funcionamento de uma organiza\u00e7\u00e3o para arrebanhar pessoas. Mas, onde h\u00e1 um interesse no funcionamento de um organismo, onde seus membros interagem na interdepend\u00eancia do cuidado, incluindo a todas as pessoas, mesmo os pastores, as pastoras e demais l\u00edderes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Como profissional da \u00e1rea de sa\u00fade mental, quais s\u00e3o as principais recomenda\u00e7\u00f5es ou conselhos aos pastores para cuidarem de sua sa\u00fade enquanto cuidam das necessidades de suas comunidades?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;O cuidado \u00e9 uma \u00eanfase importante no livro. Nessa quest\u00e3o o autocuidado \u00e9 apontado como indispens\u00e1vel e intransfer\u00edvel. Assim, estimula-se que cada pastor e pastora busque saber de si e de suas necessidades, cuidando da sua sa\u00fade f\u00edsica, emocional, mental, relacional e espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p>Pastores deveriam assumir-se como humanos e ficar mais atentos aos seus limites e possibilidades. Como humanos, e n\u00e3o mitos, podem assumir as suas vulnerabilidades. Mas, isso n\u00e3o significa que um pastor ou pastora deveria escancarar seus pecados nos p\u00falpitos. Ou que, para ser transparente diante da igreja, deveria expor a briga que teve com o c\u00f4njuge no caf\u00e9 da manh\u00e3, no prel\u00fadio do culto dominical. Al\u00e9m de ser uma exposi\u00e7\u00e3o indevida, expor situa\u00e7\u00f5es de intimidade conjugal pode ser um desrespeito ao c\u00f4njuge, que n\u00e3o escolheu ser exposto dessa forma. Intimidades conjugais, familiares e desafios pessoais podem ser compartilhados, mas apenas com pessoas de confian\u00e7a e que realmente podem ajudar na supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Em que essa abordagem ajuda?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;Informar as vulnerabilidades significa que pastores e pastoras devem comunicar que s\u00e3o humanos e n\u00e3o mitos, nem mediadores entre Deus e as pessoas, nem superdotados de todos os dons espirituais, nem seres divinos que d\u00e3o conta de todas as demandas, saberes, palavras, curas, conselhos, ora\u00e7\u00f5es, visitas e abra\u00e7os. Isso significa que precisam de pausas para descansar e dormir, para a solitude e para se alimentar e estar com a fam\u00edlia. Al\u00e9m disso, para poderem estar dispon\u00edveis para as tarefas do minist\u00e9rio, precisam de suprimentos para suas vidas. \u00c9 necess\u00e1rio ousar ser humano, socializar o sofrimento, partilhar das tarefas com outras pessoas, valorizar a individualidade e a coletividade, identificar quando precisa de ajuda e buscar por ela efetivamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Como a Sra. aborda a import\u00e2ncia da sa\u00fade espiritual no contexto da sa\u00fade pastoral?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;A sa\u00fade espiritual est\u00e1 correlacionada ao contexto da sa\u00fade pastoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas dedicadas ao servi\u00e7o da igreja e aprimoradas em seus dons e talentos, comumente s\u00e3o vistas como espiritualmente maduras. Mas, nem sempre \u00e9 isso que acontece. A maturidade espiritual est\u00e1 nivelada a maturidade interpessoal. Esse nivelamento se evidencia quando surgem as crises e os conflitos relacionais. Por exemplo: aquele casal pastoral que ensina sobre casamento e em casa tortura um ao outro com falta de amor e respeito m\u00fatuo; ou aquele l\u00edder que prega sobre humildade, mas nunca aceita ser questionado; ou aquele pastor ou pastora que defendem a pureza, mas s\u00e3o viciados em pornografia; ou aquele l\u00edder que mostra um acolhimento admir\u00e1vel pelas pessoas da igreja, mas em casa nem cumprimenta seu c\u00f4njuge e filhos; ou aqueles pais dirigentes do grupo de ora\u00e7\u00e3o, incentivando ora\u00e7\u00f5es de liberta\u00e7\u00e3o e cura, mas em casa amaldi\u00e7oam seus filhos com gritos e xingamentos. Esses exemplos evidenciam que a maturidade ou imaturidade espiritual, emocional e relacional andam alinhadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a sa\u00fade espiritual n\u00e3o se mostra pela rebuscada teologia que algu\u00e9m apresenta (apesar de ser importante), nem pelas ideologias institucionais eclesi\u00e1sticas, nem pelo carisma em dons e talentos, mas na forma como algu\u00e9m se relaciona, seja com sua equipe ministerial, com os membros, com os amigos, desconhecidos ou com o c\u00f4njuge e a fam\u00edlia. Isso diz respeito ao contexto da sa\u00fade pastoral. Uma igreja saud\u00e1vel preserva os valores da sa\u00fade espiritual, tanto por parte da lideran\u00e7a como de todos os membros.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pastores e pastoras que s\u00e3o religiosos dedicados aos interesses de sua institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, mas isso n\u00e3o garante uma espiritualidade emocionalmente saud\u00e1vel, podendo apresentar uma sa\u00fade espiritual imatura, adoecida em narcisismos, abusos, teatraliza\u00e7\u00f5es e fanatismos. Aqueles que desenvolvem uma espiritualidade sadia sabem que n\u00e3o s\u00e3o deuses de si, que aprofundam sua intimidade com Deus, que promovem o cuidado m\u00fatuo na comunidade de f\u00e9, e que, ao inv\u00e9s de negar seu sofrimento, sabem escutar o grita da alma, tanto pelo sil\u00eancio e solitude como pela fala e partilha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Quais s\u00e3o os recursos ou ferramentas pr\u00e1ticas fornecidos no livro para auxiliar os pastores no cuidado de sua sa\u00fade pastoral?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;Diferentemente de uma \u00f3tica da ideologia do sucesso empresarial, em que geralmente se espera uma supera\u00e7\u00e3o individualista no exerc\u00edcio da vida e do trabalho, uma igreja saud\u00e1vel se ocupa com a \u00e9tica do cuidado de uns aos outros. Isso implica em um reconhecimento de que seres humanos n\u00e3o conseguem ficar bem apenas assumindo o autocuidado. Mesmo que o autocuidado seja uma responsabilidade indispens\u00e1vel e intransfer\u00edvel, n\u00e3o pode estar desconectado do cuidado m\u00fatuo, quando falamos de sa\u00fade pastoral. Al\u00e9m do autocuidado ainda \u00e9 necess\u00e1rio deixar-se cuidar por Deus e pelos outros tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Na poim\u00eanica (a\u00e7\u00e3o ou atitude de pastorear) a perspectiva do cuidado m\u00fatuo envolve o cuidado em reciprocidade, que possibilita o cuidado de todos da igreja, incluindo o cuidado dos membros, mas tamb\u00e9m dos pastores e l\u00edderes. Onde apenas os pastores e l\u00edderes s\u00e3o selecionados para a tarefa do cuidar, pode-se facilmente constituir uma \u00f3tica utilitarista do cuidado e a perspectiva do uns aos outros, tanto enfatizado nas Escrituras, pode se perder na viv\u00eancia da igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda, o cuidado pode perder a sua ess\u00eancia e sentido quando \u00e9 meramente articulado como uma estrat\u00e9gia para arrebanhar novos membros. Se essa for a intencionalidade, pessoas podem ser abandonadas logo depois do objetivo alcan\u00e7ado. Infelizmente, isso acontece muito com os pastores e l\u00edderes, que n\u00e3o mais s\u00e3o vistos (nem por eles mesmos) como alvos de cuidado, apenas como quem cuida. No entanto, no ambiente de igreja, quem apenas cuida e n\u00e3o \u00e9 cuidado, pode desfalecer pelo meio da caminhada ministerial.<\/p>\n\n\n\n<p>O cuidado m\u00fatuo se mobiliza numa din\u00e2mica rec\u00edproca de cuidar e deixar-se cuidar, promovendo um ambiente eclesi\u00e1stico com possibilidades mais saud\u00e1veis. Isso se efetiva em um cont\u00ednuo aprendizado, por parte de todos. Para que se construa um clima emocional e espiritual saud\u00e1vel em um grupo de igreja, \u00e9 importante que esse entendimento fa\u00e7a sentido, tanto para os membros da igreja como para os pastores e l\u00edderes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Como a Sra. aborda a quest\u00e3o do esgotamento pastoral e quais as orienta\u00e7\u00f5es para evitar essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;O esgotamento pastoral est\u00e1 relacionado, especialmente, \u00e0s expectativas de desumaniza\u00e7\u00e3o. Nela o perigo se mostra na falta de reconhecimento de que pastores e pastoras tamb\u00e9m t\u00eam necessidades, limites, parcialidades, sofrimentos e finitude. H\u00e1 um risco deles pr\u00f3prios se verem e de serem vistos pela comunidade como uma esp\u00e9cie de divindade, que d\u00e1 conta de tudo e todos. Ao abdicarem de seu descanso, por exemplo, e demais cuidados de si mesmos, manifestam uma nega\u00e7\u00e3o de suas necessidades como indiv\u00edduos, e dessa forma abdicam tamb\u00e9m da sua humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A desumaniza\u00e7\u00e3o no minist\u00e9rio pastoral se estabelece quanto mais pastores e pastoras se entregam em ativismos em prol das expectativas de crescimento num\u00e9rico (financeiro e de novos membros) das institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas. Internalizam o ativismo como se fosse uma miss\u00e3o especial de vida e passam a descuidar de aspectos importantes da sua vida, se doando at\u00e9 sucumbirem.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, cabe bem lembrar o texto de Marcos 8.36 (vers\u00e3o NAA): Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? \u201c. Perder a alma pode ter um sentido escatol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m da presente era, na medida em que se estabelece a perda do sentido do que se faz, em que o ser humano vai virando m\u00e1quina, um rob\u00f4 que j\u00e1 n\u00e3o sente satisfa\u00e7\u00e3o no que realiza. Assim, mesmo que esteja l\u00e1 de domingo a domingo, pode n\u00e3o mais sentir conex\u00e3o com o que faz. O sofrimento pode se instalar, dando sequ\u00eancia a s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es para a sa\u00fade e qualidade de vida no trabalho pastoral.<\/p>\n\n\n\n<p>O esgotamento psicol\u00f3gico pode se manifestar pela s\u00edndrome de burnout. Essa s\u00edndrome apresenta-se pelo desgaste f\u00edsico e emocional com sintomas de exaust\u00e3o extrema, como resultado de trabalho excessivo e desgastante. Acaba semelhantemente a uma vela, que enquanto ilumina se extingue, n\u00e3o conseguindo mais reacender-se ap\u00f3s queimar seu pavio por inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Aceitar-se como humano significa abandonar a ideia de ser como Deus. Nessa aceita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio o esfor\u00e7o herc\u00faleo em representar o sucesso absoluto, a vit\u00f3ria em tudo, a prosperidade material como sinal de b\u00ean\u00e7\u00e3o, uma fam\u00edlia perfeita, um casamento blindado e uma sa\u00fade indestrut\u00edvel. Negar a si mesmo como Deus n\u00e3o significa negar-se como pessoa, mas significa negar-se como o grande \u201cEu Sou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento envolve desacelerar a m\u00e1quina mort\u00edfera dos ativismos e humanizar os relacionamentos, o trabalho (independente de qual seja) e os minist\u00e9rios eclesi\u00e1sticos. Tamb\u00e9m envolve desfocar da busca por resultados a qualquer pre\u00e7o e implica na constru\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a, da coopera\u00e7\u00e3o e da solidariedade. A paz interior, a alegria e o amor n\u00e3o se alcan\u00e7am pelo status de ser o \u201cdeus de si\u201d, nem pelo desempenho em alta performance em espet\u00e1culos deslumbrantes de representa\u00e7\u00f5es da realidade, mas na simplicidade humana nos relacionamentos, com Deus, consigo e com os demais semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: O livro &#8220;Sa\u00fade Pastoral: reflex\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o&#8221; inclui exemplos reais ou estudos de caso para ilustrar os conceitos e princ\u00edpios discutidos? Poderia compartilhar algum?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;A pesquisas sobre o exerc\u00edcio pastoral confirmam o que ministros e ministras em igrejas j\u00e1 conhecem bem pela pr\u00f3pria experi\u00eancia. A tarefa pastoral \u00e9 reconhecida como uma nobre miss\u00e3o, cheia de sentido comunit\u00e1rio, simb\u00f3lico e espiritual, o que gera um empenho consciente e prazeroso na atividade. No entanto, algumas dessas pesquisas tamb\u00e9m apontam que a atividade pastoral est\u00e1 entre as ocupa\u00e7\u00f5es mais estressantes e se assemelha ao trabalho no mercado secular, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s press\u00f5es pautadas pela produtividade e ideologia do sucesso, e na exig\u00eancia cada vez maior aos l\u00edderes, gerando altera\u00e7\u00f5es em sua sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro \u00e9 mencionado um desabafo de uma esposa de pastor que mostra o quanto o ativismo pode afetar as rela\u00e7\u00f5es familiares. Ela dizia: \u201cPor um tempo, trabalhamos 24 horas por dia, 7 dias por semana e fomos nos perdendo dentro de casa\u201d. Isso \u00e9 um perigo para as fam\u00edlias pastorais! Enquanto batalham para salvar as pessoas em outras fam\u00edlias, as pessoas da pr\u00f3pria fam\u00edlia v\u00e3o se perdendo em sua sa\u00fade e em suas rela\u00e7\u00f5es significativas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G.: Qual \u00e9 a mensagem principal que a Sra. deseja transmitir aos pastores e l\u00edderes religiosos por meio deste livro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>C.E.:<\/strong>&nbsp;A tarefa do cuidado n\u00e3o se direciona apenas a l\u00edderes, pastores e pastoras, como se fosse uma tarefa de uns favorecendo outros. N\u00e3o \u00e9 apenas estabelecer quem cuida de quem, como se umas pessoas fossem selecionadas ou vocacionadas para o cuidado e outras apenas para usufruir desse cuidado. Muitas vezes se espera que o l\u00edder eclesi\u00e1stico promova um autocuidado, numa expectativa de que se atenha sozinho ao cuidado de si mesmo e esteja bem para sempre estar de p\u00e9 para assumir os cuidados de outros. Esse caminho pode ser uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma maldi\u00e7\u00e3o. B\u00ean\u00e7\u00e3o, porque na promo\u00e7\u00e3o do autocuidado um l\u00edder poder\u00e1 encontrar melhor sa\u00fade e bem-estar pessoal. No entanto, pode ser uma maldi\u00e7\u00e3o quando a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas se aprimorar para ser um modelo de cuidado de outros. Adotar essa postura pode desumanizar uma pessoa e lev\u00e1-la ao adoecimento, mesmo que esteja muito bem-intencionada.<\/p>\n\n\n\n<p>O autocuidado, apesar de ser uma responsabilidade pessoal, n\u00e3o pode estar desconectado do cuidado m\u00fatuo. Seres humanos n\u00e3o conseguem ficar bem apenas assumindo o autocuidado. Ainda ser\u00e1 necess\u00e1rio deixar-se cuidar por Deus e pelos outros tamb\u00e9m. Selecionar alguns para cuidar e n\u00e3o os tornar igualmente alvos de cuidados pode instaurar as ang\u00fastias da solid\u00e3o. Seria como esperar que um l\u00edder se estruture forte, imbat\u00edvel e infal\u00edvel em seu modelo de autocuidado. O fato \u00e9 que, em uma comunidade humana, al\u00e9m do autocuidado, o cuidado m\u00fatuo ser\u00e1 igualmente indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme as recomenda\u00e7\u00f5es das Escrituras:<\/p>\n\n\n\n<p>Sirvam-se uns aos outros. (G\u00e1latas 5.13)<\/p>\n\n\n\n<p>Sujeitem-se uns aos outros. (Ef\u00e9sios 5.21)<\/p>\n\n\n\n<p>Dediquem-se uns aos outros. (Romanos 12.10)<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00fadem-se uns aos outros. (2 Cor\u00edntios 13.12)<\/p>\n\n\n\n<p>Consolem uns aos outros. (1 Tessalonicenses 4.18)<\/p>\n\n\n\n<p>Consideremo-nos uns aos outros. (Hebreus 10.24)<\/p>\n\n\n\n<p>Suportem-se uns aos outros. (Colossenses 3.13)<\/p>\n\n\n\n<p>Exortem-se uns aos outros. (1 Tessalonicenses 5.11)<\/p>\n\n\n\n<p>Edifiquem-se uns aos outros. (1 Tessalonicenses 5.11)<\/p>\n\n\n\n<p>Amem-se uns aos outros como eu vos amei. (Jo\u00e3o 15.12)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A psic\u00f3loga&nbsp;Clarice Ebert&nbsp;acaba de lan\u00e7ar o livro &#8220;Sa\u00fade Pastoral: reflex\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o&#8221;, no qual aborda quest\u00f5es referentes \u00e0 sa\u00fade de quem exerce a poim\u00eanica, ou seja, a\u00e7\u00e3o ou atitude de pastorear. 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