{"id":1845,"date":"2018-11-13T17:01:54","date_gmt":"2018-11-13T19:01:54","guid":{"rendered":"http:\/\/dgospel.com.br\/portal\/?p=1845"},"modified":"2018-11-13T17:01:54","modified_gmt":"2018-11-13T19:01:54","slug":"o-pai-do-soldado-e-o-velho-engodo-comunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dgospel.com.br\/portal\/index.php\/2018\/11\/13\/o-pai-do-soldado-e-o-velho-engodo-comunista\/","title":{"rendered":"O Pai do Soldado e o Velho Engodo Comunista"},"content":{"rendered":"<p>\u00e1 faz algum tempo que reservo, em minha alma, um lugar especial \u00e0 R\u00fassia. Nesse amor j\u00e1 um tanto ser\u00f4dio, devoto-me a orar pelas igrejas ali semeadas por Cust\u00f3dio e Cirilo, no s\u00e9culo IX, e pelos mission\u00e1rios europeus e americanos, no s\u00e9culo passado. Vim a descobrir, recentemente, que h\u00e1 muitos pentecostais naquele ch\u00e3o imenso, g\u00e9lido e ainda ignorado.<\/p>\n<p>Atra\u00eddo pela R\u00fassia, prendi-me ao seu idioma; paix\u00e3o ainda tempor\u00e3. E, de imediato, pus-me a estudar metodicamente a \u201cmadre l\u00edngua\u201d. Sim, querido leitor, a \u201cmadre e boa l\u00edngua\u201d! Assim, carinhosa e poeticamente, as gentes russas apelidam o mais belo dos falares de Kiev. Semelhante tarefa, como voc\u00ea sabe, requer apego e muita disciplina. Mas valeu-me a pena. Hoje, gra\u00e7as a Deus, j\u00e1 me \u00e9 poss\u00edvel ler a B\u00edblia no vern\u00e1culo de Liev Tolst\u00f3i.<\/p>\n<p>A fim de aumentar a minha compreens\u00e3o desse idioma, assisto, de vez em quando, a um filme em russo. E, atento a cada mudan\u00e7a de cena, deleito-me com o som, com a dic\u00e7\u00e3o, com a harmonia e com o ritmo de uma das l\u00ednguas mais belas faladas pelos filhos de No\u00e9, desde a confus\u00e3o de Babel.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano, vi um filme que, embora rodado numa rep\u00fablica sovi\u00e9tica, pareceu-me de uma ternura rara. Aqui, comedido leitor, caberia um superlativo. Mas, depois de analisar criticamente aquela obra \u201cmeiga e po\u00e9tica\u201d, assustei-me. Em sua metalinguagem, vim a descobrir uma engenharia social t\u00e3o bem arquitetada, que era capaz de canonizar o mais vil e abjeto dos ditadores.<\/p>\n<p><strong>O Pai do Soldado<\/strong><\/p>\n<p>Intitulado O Pai do Soldado, o filme \u00e9 dirigido por Rezo Chkheidze e tem, como atores principais, Sergo Zakariadze, Vladimir Privaltssev e Aleksandr Nazarov. O referido filme, lan\u00e7ado em 1959, narra as aventuras de um pai, que, procedente da Ge\u00f3rgia, cruza o imposs\u00edvel para ver o filho gravemente ferido em combate. Mas, ao chegar ao hospital, descobre que o ferimento n\u00e3o era t\u00e3o grave, pois o valente e destemido soldado j\u00e1 estava a caminho de Berlim, a fim de ajustar as contas com Adolf Hitler.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia deixa Georgy ainda mais ansioso; rever o filho \u00e9 tudo o que ele deseja. A essas alturas, ele j\u00e1 sabe que, na guerra, o amanh\u00e3 \u00e9 uma remota possibilidade. Por isso, ajunta improvisos e imprevis\u00f5es, e sai ao encal\u00e7o do primog\u00eanito. Nessa jornada, aventura-se aqui, e, mais al\u00e9m, desventura-se. A cada est\u00e2ncia, v\u00ea-se \u00e0s voltas com a morte. Constrangem-no, ainda, as desconfian\u00e7as e protocolos do Ex\u00e9rcito Vermelho.<\/p>\n<p>O pai, contudo, n\u00e3o desiste do filho.<\/p>\n<p>Depois de uma longa e estressante peregrina\u00e7\u00e3o, encontra o rapaz. Ouve-lhe a voz. Trocam algumas palavras. Mas n\u00e3o consegue aproximar-se dele. Conquanto a dist\u00e2ncia que os separava n\u00e3o fosse grande, o intenso tiroteio mant\u00e9m-nos dolorosamente apartados um do outro. De repente, o guerreiro \u00e9 atingido por uma bala an\u00f4nima, despretensiosa e fortuita, mas certeira.<\/p>\n<p>Findo o combate, Georgy achega-se ao filho. Abra\u00e7a-o. E, ap\u00f3s ouvir-lhe as \u00faltimas palavras e assistir-lhe o derradeiro suspiro, v\u00ea-o morrer. O jovem belo e sonhador desfalece-lhe nos bra\u00e7os. A dor \u00e9 muita, mas a l\u00e1grima, pouca; no front russo, o choro \u00e9 desencorajado.<br \/>\nApesar do luto, o vinhateiro georgiano re\u00fane o que lhe restara de for\u00e7as, e parte, junto ao pelot\u00e3o a que pertencera o filho, para a investida final contra Berlim.<\/p>\n<p><strong>A semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>De in\u00edcio, senti-me comovido pela hist\u00f3ria de Georgy. Mas, depois de ruminar cada quadro do filme, vim a descobrir que este n\u00e3o passava de uma bem engenhada propaganda comunista. A narrativa era t\u00e3o eficiente, que podia transformar um assassino frio, calculista e implac\u00e1vel, como Joseph Stalin, num santo com direito a todos os \u00edcones, nichos, altares, incensos e enc\u00f4mios da ortodoxia russa.<\/p>\n<p>O anci\u00e3o georgiano era, na verdade, a ben\u00e9vola personifica\u00e7\u00e3o de Stalin. Quando do lan\u00e7amento do filme, o tirano sanguin\u00e1rio j\u00e1 estava morto; ele falecera em 1953. Mas, certamente, a primorosa cinematografia fora produzida sob os seus ausp\u00edcios.<\/p>\n<p>Vejamos algumas \u201ccoincid\u00eancias\u201d observadas no filme.<\/p>\n<p>Georgy era t\u00e3o georgiano quanto Stalin. O bigode de ambos confundia-se. O andar do primeiro espelhava o do segundo. Todavia, o detalhe que mais chamou-me a aten\u00e7\u00e3o foi o fato de Joseph e Georgy haverem perdido seus filhos na chamada Guerra Patri\u00f3tica. No Ocidente, conhecemo-la como a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O filho de Stalin, Yakov Iosifovich Djugashvili (1907-1943), fora capturado pelos alem\u00e3es, em 1941, vindo a morrer dois anos depois de maneira ainda n\u00e3o explicada. O alem\u00e3es chegaram a negociar, com Stalin, a troca de Yakov pelo marechal alem\u00e3o Friedrich Paulus. Mas, o ditador comunista, ao ouvir a proposta, vociferou: \u201cN\u00e3o trocarei um marechal por um tenente\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 o filho de Georgy teve um fim mais nobre: morreu nos bra\u00e7os do pai. Na fic\u00e7\u00e3o, um final feliz \u00e9 poss\u00edvel at\u00e9 mesmo atr\u00e1s da cortina de ferro.<\/p>\n<p>As semelhan\u00e7as entre o velho Georgy e Stalin n\u00e3o s\u00e3o facilmente detect\u00e1veis pelo espectador desatento. Mas as justaposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o not\u00e1veis. Em primeiro lugar, o ditador sovi\u00e9tico n\u00e3o falava muito bem o russo. Embora sovi\u00e9tico, seu idioma materno era o georgiano. Georgy tamb\u00e9m enfrentava s\u00e9rios problemas com a \u201cmadre l\u00edngua\u201d; n\u00e3o sabia ler os caracteres cir\u00edlicos. Al\u00e9m dos bigodes espessos e cheios, ambos aparentavam um defeito f\u00edsico quase impercept\u00edvel. Enfim, o velho Georgy era uma c\u00f3pia humana do sanguinolento e desumano Stalin.<\/p>\n<p>Chkheidze empreendeu o imposs\u00edvel. Logrou canonizar Joseph Stalin n\u00e3o propriamente como o her\u00f3i da Guerra Patri\u00f3tica; ungiu-o como o santo de todos os comunistas. Ali\u00e1s, no velho e persistente Georgy, o cineasta busca convencer os sovi\u00e9ticos de que Stalin \u00e9 o grande pai do povo.<\/p>\n<p>Como todos eram obrigados a assistir a filmes como esse, eram todos induzidos, sutil e habilmente, a aceitar o ditador como o pai dos pobres, dos enfermos, dos oprimidos e dos sem esperan\u00e7a. Tais l\u00edderes, a prop\u00f3sito, n\u00e3o geram outra coisa sen\u00e3o pobreza, enfermidade, opress\u00e3o e desesperan\u00e7a. Eles s\u00e3o incapazes de parir riqueza, sa\u00fade, liberdade e esperan\u00e7a. Tais luxos s\u00e3o reservados \u00e0s elites comunistas, que, na pr\u00e1tica, s\u00e3o mais elites do que as elites capitalistas que eles, tanto outrora quanto hoje, dizem odiar.<\/p>\n<p>Obras como esse filme fazem parte daquilo que, modernamente, veio a chamar-se de engenharia social.<\/p>\n<p><strong>A engenharia da alma<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Joseph Stalin disse, certa vez, que os poetas s\u00e3o os engenheiros da alma. Atrav\u00e9s de versos e rimas, trabalham eficazmente as paix\u00f5es humanas \u2013 do \u00f3dio mais irreconcili\u00e1vel ao amor mais arrebatado. Seduzem, amedrontam e buscam quebrar a vontade mais f\u00e9rrea.<\/p>\n<p>O ditador sovi\u00e9tico sabia como utilizar as letras e as artes para conseguir seus intentos. Apesar de sua trucul\u00eancia, Stalin era um refinado intelectual; at\u00e9 poemas fazia. E, para um grupo bem seleto, ousava ele cantar. Dizem que a sua voz era boa. Tamb\u00e9m lia muito. Quando jovem, frequentava a biblioteca de Tbilisi, capital da Ge\u00f3rgia, e, literalmente, consumia os livros daquele acervo; roubava-os.<\/p>\n<p>Ele utilizou toda a sua cultura, inclusive a teol\u00f3gica, pois tamb\u00e9m fora seminarista, a fim de escravizar a alma humana. E, nessa empresa, manteve milh\u00f5es de homens e mulheres sob um cativeiro insuport\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 preciso mencionar os milh\u00f5es que ele, direta ou indiretamente, mandou assassinar. Foi um genocida da pr\u00f3pria gente.<\/p>\n<p>Embora poeta, despoetizava a vida. Sabia como desconstruir um verso, tirar a eufonia de uma rima e comprometer a m\u00e9trica mais perfeita. Era mais eficaz que Jacques Derrida na desconstru\u00e7\u00e3o de um discurso. Montaigne estava certo ao afirmar que \u201ca maior parte das raz\u00f5es dos problemas do mundo \u00e9 gramatical\u201d.<br \/>\nEm virtude de suas habilidades com as artes, aprisionou as letras e manietou a arquitetura. A Moscou comunista era t\u00e3o fria, t\u00e3o distante e t\u00e3o soberba quanto ele. Sem cor e desprovida de simpatia. Em meio aos arranha-c\u00e9us, engenhavam-se os infernos jamais imaginados pelo g\u00eanio mais f\u00e9rtil.<\/p>\n<p><strong>Sim, o Pai do Soldado<\/strong><\/p>\n<p>O que havia, de fato, entre Georgy e Stalin? Apenas a terra natal, o idioma e a paternidade ferida e machucada? Entre ambos havia, ainda, uma devo\u00e7\u00e3o doentia pelo comunismo e por tudo o que este pode gerar na alma humana: apreens\u00e3o, medo e terror.<\/p>\n<p>Sob o enredo de um filme aparentemente terno, jazia os intentos de um dos maiores criminosos do mundo. E, sob a pele do bom e velho vinhateiro da Ge\u00f3rgia, o cineasta, engenhando a alma sovi\u00e9tica, mostrou um Stalin que jamais existiu: o pai das rep\u00fablicas socialistas sovi\u00e9ticas. Na verdade, era ele o verdugo dos verdugos; o maior criminoso que este mundo j\u00e1 teve. Sim, pior do que Hitler.<\/p>\n<p>Querido leitor, ao ler um poema, ou ao assistir a um filme, seja precavido. N\u00e3o se deixe arquitetar por homicidas, ad\u00falteros, corruptos e mentirosos. Eis a advert\u00eancia de Paulo: \u201cMas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua ast\u00facia, assim tamb\u00e9m seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo\u201d (2 Co 11.3).<\/p>\n<p>A mentira, desde o \u00c9den, vem sendo oferecida como a realidade \u00faltima do Universo. Examinemos tudo; retenhamos apenas o bem.<\/p>\n<p>_______________________________________________________________________________<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-1847\" src=\"http:\/\/dgospel.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/claudionor-1.png\" alt=\"\" width=\"237\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p>Por\u00a0<strong>Claudionor de Andrade.<\/strong><\/p>\n<p>Claudionor de Andrade \u00e9 Consultor Teol\u00f3gico da CPAD, membro da Casa de Letras Em\u00edlio Conde, te\u00f3logo, conferencista, Comentarista das Revistas Li\u00e7\u00f5es B\u00edblicas da CPAD e autor dos livros \u201cAs Verdades Centrais da F\u00e9 Crist\u00e3\u201d, \u201cManual do Conselheiro Crist\u00e3o\u201d, \u201cTeologia da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3\u201d, \u201cManual do Superintendente da Escola Dominical\u201d, \u201cDicion\u00e1rio Teol\u00f3gico\u201d, \u201cAs Disciplinas da Vida Crist\u00e3\u201d, \u201cJeremias \u2013 O Profeta da Esperan\u00e7a\u201d, \u201cGeografia B\u00edblica\u201d, \u201cHist\u00f3ria de Jerusal\u00e9m\u201d, \u201cFundamentos B\u00edblicos de um Aut\u00eantico Avivamento\u201d, \u201cMerecem Confian\u00e7a as Profecias?\u201d, \u201cComent\u00e1rio B\u00edblico de Judas\u201d, \u201cDicion\u00e1rio B\u00edblico das Profecias\u201d e \u201cComent\u00e1rio B\u00edblico de J\u00f3\u201d, dentre outros t\u00edtulos da CPAD.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00e1 faz algum tempo que reservo, em minha alma, um lugar especial \u00e0 R\u00fassia. 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