{"id":3093,"date":"2019-05-07T13:17:44","date_gmt":"2019-05-07T16:17:44","guid":{"rendered":"http:\/\/dgospel.com.br\/portal\/?p=3093"},"modified":"2019-05-07T13:23:02","modified_gmt":"2019-05-07T16:23:02","slug":"estudo-mostra-que-numeros-sobre-homofobia-no-brasil-sao-falsos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dgospel.com.br\/portal\/index.php\/2019\/05\/07\/estudo-mostra-que-numeros-sobre-homofobia-no-brasil-sao-falsos\/","title":{"rendered":"Estudo mostra que n\u00fameros sobre homofobia no Brasil s\u00e3o falsos"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata gays, l\u00e9sbicas e travestis no mundo. A cada 19 horas, um LGBT \u00e9 assassinado ou comete suic\u00eddio. Essas duas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o repetidas com muita frequ\u00eancia, seja na imprensa, ou em discursos de militantes.<\/p>\n<p>Recentemente, um grupo de pesquisadores se debru\u00e7ou sobre a origem dos dados que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o a essas conclus\u00f5es. O resultado da an\u00e1lise foi publicado na quarta-feira (01). Ela chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que os dados originais s\u00e3o exagerados.<\/p>\n<p>Apenas 9% do total pode ser considerado confi\u00e1vel. Ou seja: de 347 casos citados em um estudo espec\u00edfico, apenas 31 casos indiscutivelmente relacionados \u00e0 viol\u00eancia contra homossexuais e travestis.<\/p>\n<p>Existem pelo menos quatro levantamentos estat\u00edsticos sobre a viol\u00eancia contra LBGT no Brasil. O mais tradicional deles \u00e9 produzido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) h\u00e1 39 anos. Produzido anualmente, ele \u00e9 divulgado, principalmente pela imprensa, com grande destaque. O problema \u00e9 que o estudo n\u00e3o passa de um clipping de not\u00edcias, interpretadas pelos militantes do GGB e transformadas em uma lista.<\/p>\n<p><strong>Casos duplicados<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPara descobrir at\u00e9 onde vai a imprecis\u00e3o, n\u00f3s refizemos todo o trabalho do GGB referente ao ano de 2016, checando todos os dados colhidos pelo grupo\u201d, informa o estudo, liderado pelo pesquisador mineiro Eli Vieira, bi\u00f3logo de 32 anos, mestre em gen\u00e9tica e biologia molecular, com doutorado em gen\u00e9tica pela Universidade Cambridge, na Inglaterra. Eli Vieira, que \u00e9 homossexual, ficou famoso em 2013, quando questionou em v\u00eddeo uma afirma\u00e7\u00e3o dada pelo pastor Silas Malafaia, a de que boa parte dos homossexuais tinha hist\u00f3rico de abuso na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u201cDescobrimos que o banco de dados de v\u00edtimas da homofobia em 2016 no Brasil do GGB sofre de graves problemas de rigor\u201d, o estudo prossegue. \u201cApesar do relat\u00f3rio se referir ao Brasil, est\u00e3o inclu\u00eddos seis casos de mortes no exterior. H\u00e1 alguns casos duplicados. Em alguns casos descobrimos uma leitura incompleta do relato jornal\u00edstico: por exemplo, um casal heterossexual supostamente viciado em drogas foi assassinado por um traficante no Cear\u00e1. Aparentemente, o caso foi inclu\u00eddo pelo GGB somente porque a manchete omitiu o sexo da mulher, dando a entender erroneamente que poderia ser um casal gay\u201d.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o tem um levantamento oficial de viol\u00eancia contra LGBT. Al\u00e9m disso, nem 10% dos casos de homic\u00eddio do pa\u00eds s\u00e3o solucionados, o que dificulta identificar as causas de cada assassinato. Por isso, grupos de militantes se organizam para apurar estat\u00edsticas, com base nas not\u00edcias de jornais.<\/p>\n<p>O resultado, segundo Eli Vieira, \u00e9 exagerado.<\/p>\n<p>\u201cNo estudo de 2016\u201d, ele afirma em entrevista \u00e0 Gazeta do Povo, \u201cencontramos 31 casos em que um LGBT morreu por ser LGBT no Brasil. \u00c9 uma amostragem muito baixa, n\u00e3o permite fazer compara\u00e7\u00f5es rigorosas. Na verdade, n\u00e3o sabemos nada sobre a viol\u00eancia contra essas pessoas. N\u00e3o podemos sequer fazer compara\u00e7\u00f5es com outros pa\u00edses. Tudo o que podemos afirmar \u00e9 que problema existe, mas \u00e9 menor do que afirma o GGB\u201d.<\/p>\n<p><strong>Imprensa em crise<\/strong><\/p>\n<p>O pesquisador afirma que, na falta de dados confi\u00e1veis, s\u00f3 se pode especular. \u201cSe \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o Brasil \u00e9 excepcional na viol\u00eancia contra algum grupo LGBT, eu diria que provavelmente \u00e9 contra as transexuais. Existem casos de mortes com dezenas de facadas, s\u00e3o pessoas que passam v\u00e1rios minutos atacando um corpo j\u00e1 morto. \u00c9 muita motiva\u00e7\u00e3o da parte do assassino\u201d.<\/p>\n<p>Para Eli Vieira, os pesquisadores que fazem esses estudos n\u00e3o aplicam conhecimentos m\u00ednimos de estat\u00edstica. \u201cA maioria vem da \u00e1rea de humanidades, onde, no Brasil, o ensino e a aplica\u00e7\u00e3o de estat\u00edstica s\u00e3o deficientes. Al\u00e9m disso, existe um tribalismo pol\u00edtico envolvido, h\u00e1 mais interesse em contrariar a vertente oposta do que em buscar a verdade\u201d.<\/p>\n<p>Isso tudo leva, diz o pesquisador, a um racioc\u00ednio circular: \u201cIncluem casos incertos nos dados porque a homofobia \u00e9 estrutural. E dizem em documento escrito em parceria com o Minist\u00e9rio da Fam\u00edlia, Mulher e Direitos Humanos em 2018 (quando ainda era chamado apenas de Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos), que a homofobia \u00e9 estrutural porque os dados deles mostram isso\u201d.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, a facilidade com que a imprensa aceita esse tipo de relat\u00f3rio \u00e9 sinal de falta de qualidade no trabalho. \u201cO pr\u00f3prio fato de estarem surgindo ag\u00eancias de checagem indica que a imprensa est\u00e1 em crise. Afinal, a checagem correta de fatos deveria estar na base de todas as reportagens.&#8221;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, duas ag\u00eancias de checagem, a P\u00fablica e a Lupa, j\u00e1 se debru\u00e7aram sobre os mesmos dados e conclu\u00edram que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, com base neles, afirmar que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata LGBT.<\/p>\n<p>\u201cComo ser\u00edamos o pa\u00eds que mais mata se existem lugares onde homossexualidade \u00e9 crime punido com pena de morte?\u201d, questiona o pesquisador.<\/p>\n<p><strong>\u201cM\u00e3os sujas de sangue\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em entrevista concedida em fevereiro sobre o mesmo assunto, o antrop\u00f3logo e historiador Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, respondeu \u00e0s cr\u00edticas \u00e0 metodologia do relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s somos os primeiros a reconhecer que nosso levantamento \u00e9 incompleto, porque n\u00e3o \u00e9 feito por \u00f3rg\u00e3os oficiais, que deveriam ter acesso aos relat\u00f3rios anuais das delegacias de pol\u00edcia, dos f\u00f3runs dos estados, dos f\u00f3runs municipais, das secretarias de seguran\u00e7a p\u00fablica e de direitos humanos\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 claro que h\u00e1 dados contradit\u00f3rios, \u00e0s vezes equivocados, mas n\u00e3o chegam a 5%. \u00c9 intoler\u00e2ncia pegar essa meia d\u00fazia de casos que s\u00e3o problem\u00e1ticos e desqualificar centenas de epis\u00f3dios documentados. Negar o \u00f3dio desses crimes contra homossexuais \u00e9 intoler\u00e2ncia, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de homofobia\u201d.<\/p>\n<p>O professor conclui: \u201cEm 99% dos casos de mortes violentas de LGBT, a homossexualidade foi um agravante. A gente ouve as pessoas dizendo nas ruas, \u2018viado descarado\u2019, \u2018traveco nojento\u2019, etc. Nossos cr\u00edticos, no fundo, s\u00e3o c\u00famplices e t\u00eam as m\u00e3os sujas do sangue desses gays, travestis, l\u00e9sbicas e transexuais mortos pela intoler\u00e2ncia\u201d.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonte: Gazeta do Povo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata gays, l\u00e9sbicas e travestis no mundo. A cada 19 horas, um LGBT \u00e9 assassinado ou comete suic\u00eddio. Essas duas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o repetidas com muita frequ\u00eancia, seja na imprensa, ou em discursos de militantes. 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