{"id":4981,"date":"2020-02-24T11:12:09","date_gmt":"2020-02-24T14:12:09","guid":{"rendered":"http:\/\/dgospel.com.br\/portal\/?p=4981"},"modified":"2020-02-24T11:12:10","modified_gmt":"2020-02-24T14:12:10","slug":"estudo-mostra-impacto-de-bebidas-alcoolicas-na-saude-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dgospel.com.br\/portal\/index.php\/2020\/02\/24\/estudo-mostra-impacto-de-bebidas-alcoolicas-na-saude-publica\/","title":{"rendered":"Estudo mostra impacto de bebidas alco\u00f3licas na sa\u00fade p\u00fablica"},"content":{"rendered":"\n<p>As doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis representam mais de 72% das mortes globais anuais e agora est\u00e3o recebendo, com raz\u00e3o, maior aten\u00e7\u00e3o na agenda global de sa\u00fade. No entanto, um dos principais fatores de risco para doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis continua sendo negligenciado: o \u00e1lcool. Embora a ind\u00fastria do \u00e1lcool use sofisticadas campanhas de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para manter essa quase invisibilidade na agenda da sa\u00fade, a comunidade internacional tamb\u00e9m \u00e9 culpada. Os formuladores de pol\u00edticas de sa\u00fade n\u00e3o utilizam as evid\u00eancias sobre o \u00e1lcool, n\u00e3o identificam e n\u00e3o enfrentam interfer\u00eancias da ind\u00fastria do \u00e1lcool ou priorizam recursos, pol\u00edticas e programas para o controle do \u00e1lcool.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Ag\u00eancia Internacional de Pesquisa sobre o C\u00e2ncer (IARC), o \u00e1lcool, como o amianto e o tabaco, \u00e9 um carcin\u00f3geno do grupo 1 e pode causar m\u00faltiplas formas de c\u00e2ncer, como o c\u00e2ncer de mama; os riscos \u00e0 sa\u00fade est\u00e3o associados ao consumo de bebidas em qualquer dose. O <em>Relat\u00f3rio de Status Global sobre \u00c1lcool e Sa\u00fade <\/em>da OMS de 2018 estima que, anualmente, o \u00e1lcool \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 25% das mortes mundiais em pessoas de 20 a 39 anos e mata mais de 3 milh\u00f5es de pessoas, o equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de Berlim ou Abuja. Em 2016, a <em>Public Health England<\/em> constatou que o \u00e1lcool \u00e9 a principal causa de morte no Reino Unido em pessoas de 15 a 49 anos e \u00e9 um fator para mais de 200 condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade [1]. Al\u00e9m disso, estudos no Reino Unido, Uni\u00e3o Europeia e Austr\u00e1lia descobriram que o \u00e1lcool \u00e9, no geral, mais prejudicial do que todas as outras drogas, tanto para seus consumidores como para terceiros [2, 3, 4]. O consumo mundial de \u00e1lcool tamb\u00e9m est\u00e1 se expandindo rapidamente e deve aumentar em mais de 10% at\u00e9 2030. Prev\u00ea-se que esse aumento seja impulsionado pela expans\u00e3o do mercado em regi\u00f5es-chave, incluindo a regi\u00e3o do Sudeste Asi\u00e1tico (46,8% de crescimento do mercado at\u00e9 2030) e regi\u00e3o do Pac\u00edfico Ocidental (33,7% de crescimento do mercado at\u00e9 2030) [5]. Assim, os formuladores de pol\u00edticas globais inclu\u00edram o controle de \u00e1lcool nos <em>Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel<\/em>, mas muitas vezes permanecem inconscientes da interfer\u00eancia da ind\u00fastria deste setor.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Aprendendo com a ind\u00fastria do tabaco, a ind\u00fastria do \u00e1lcool divulgou d\u00favidas e confus\u00f5es sobre os efeitos do \u00e1lcool na sa\u00fade, financiando pesquisas e participando de amplas campanhas de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, incluindo o uso das m\u00eddias sociais, para enganar o p\u00fablico sobre os v\u00ednculos entre \u00e1lcool e c\u00e2ncer [6]. No entanto, a ind\u00fastria do \u00e1lcool evitou amplamente o estigma associado \u00e0 ind\u00fastria do tabaco [7]. Pelo contr\u00e1rio, a ind\u00fastria do \u00e1lcool goza de relativa discri\u00e7\u00e3o em seus esfor\u00e7os para distorcer a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Embora a <em>Smoke-Free World<\/em> (Funda\u00e7\u00e3o para um Mundo Sem Fumo) da <em>Philip Morris International<\/em> tenha sido amplamente condenada pela comunidade internacional no campo da sa\u00fade, a Funda\u00e7\u00e3o criada pela maior cervejaria do mundo, a Anheuser-Busch InBev, que, segundo o site da organiza\u00e7\u00e3o, foi \u201ccriada para reduzir o beber nocivo globalmente \u201d, recebe pouco ou nenhum escrut\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, a funda\u00e7\u00e3o atrai altos funcion\u00e1rios da ONU e ex-funcion\u00e1rios do governo dos EUA para o seu conselho e financia e se envolve em processos de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas. Apesar dos \u00f3bvios conflitos de interesse, a Funda\u00e7\u00e3o Anheuser-Busch InBev patrocina um f\u00f3rum do US National Academies of Science (as Academias Nacionais de Ci\u00eancias dos EUA) sobre preven\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia global [8]. Outro exemplo \u00e9 o UNLEASH, criado pela Funda\u00e7\u00e3o Carlsberg, que \u00e9 um \u201claborat\u00f3rio de inova\u00e7\u00e3o global\u201d para jovens inovadores criarem redes para os <em>Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel<\/em>, em parceria com o PNUD, o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente, a Universidade da ONU, a ONU Habitat e muitos outros.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Esse engajamento reflete uma estrat\u00e9gia deliberada em todo o setor para moldar a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas. A ind\u00fastria do \u00e1lcool deturpa evid\u00eancias dos efeitos adversos \u00e0 sa\u00fade causados pelo \u00e1lcool e procura desenvolver parcerias para retratar a ind\u00fastria como um parceiro respons\u00e1vel, construindo argumentos que se concentram nos consumidores de \u00e1lcool e n\u00e3o no fornecimento de \u00e1lcool em si [6,9]. Por exemplo, houve esfor\u00e7o de parceria para apoiar um estudo do <em>National Institutes of Health<\/em> (NIH) dos EUA sobre os efeitos do \u00e1lcool na sa\u00fade, mas com uma metodologia enviesada; esse vi\u00e9s foi descoberto e a parceria foi cancelada em 2018. O fundo global foi suspenso, mas ainda n\u00e3o encerrou a preocupante parceria da organiza\u00e7\u00e3o com a Heineken [10]. Em 2019, a OMS emitiu orienta\u00e7\u00f5es para a equipe que pro\u00edbem parcerias, recebimento de apoio ou colabora\u00e7\u00e3o com a ind\u00fastria do \u00e1lcool [11].<br><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas diretrizes para sua equipe, a nova iniciativa SAFER da OMS para os formuladores de pol\u00edticas nacionais tem como princ\u00edpio proteger os pa\u00edses da influ\u00eancia da ind\u00fastria; no entanto, como esse princ\u00edpio ser\u00e1 operacionalizado ainda n\u00e3o est\u00e1 claro. De maneira geral, a iniciativa SAFER n\u00e3o recebeu a prioridade program\u00e1tica ou os recursos necess\u00e1rios. Por exemplo, tributar o \u00e1lcool \u00e9 uma das estrat\u00e9gias SAFER. A OMS recomendou taxas de imposto para tabaco (pelo menos 70% do pre\u00e7o final) e bebidas ado\u00e7adas com a\u00e7\u00facar (pelo menos 20%), mas n\u00e3o para o \u00e1lcool. No entanto, essa neglig\u00eancia n\u00e3o se limita \u00e0 OMS; muitas institui\u00e7\u00f5es internacionais e ag\u00eancias da ONU e estados membros envolvidos na sa\u00fade global continuam negligenciando o controle do \u00e1lcool.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade global tamb\u00e9m ignoram persistentemente o controle do \u00e1lcool. A <em>Bloomberg Philanthropies<\/em>, l\u00edder mundial no controle do tabaco, convocou uma for\u00e7a-tarefa de alto n\u00edvel com ex-chefes de estado e ministros de finan\u00e7as para considerar pol\u00edticas fiscais para a sa\u00fade. A organiza\u00e7\u00e3o filantr\u00f3pica reconheceu que os impostos sobre o \u00e1lcool eram subutilizados e, se implementados, poderiam salvar indiretamente at\u00e9 22 milh\u00f5es de vidas nos pr\u00f3ximos 50 anos [12]. No entanto, a <em>Bloomberg Philanthropies<\/em> n\u00e3o dedicou recursos a programas de controle de \u00e1lcool. O Wellcome Trust, que anunciou um grande compromisso de \u00a3 200 milh\u00f5es para transformar a pesquisa e o tratamento para a sa\u00fade mental, tamb\u00e9m investiu \u00a3 171 milh\u00f5es na Anheuser-Busch InBev a partir de 2017 [13]. Por\u00e9m, nenhuma institui\u00e7\u00e3o filantr\u00f3pica de financiamento em sa\u00fade global alocou recursos substanciais ou priorizou investimentos no controle do \u00e1lcool, apesar de esse problema negligenciado precisar de lideran\u00e7a.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade internacional continua a desconsiderar o controle do \u00e1lcool como uma prioridade pol\u00edtica que pode salvar vidas. A aten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao \u00e1lcool n\u00e3o \u00e9 nada proporcional \u00e0 sua amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade; o \u00e1lcool mata mais pessoas anualmente do que HIV, tuberculose e mal\u00e1ria, juntos. O controle do \u00e1lcool \u00e9 uma necessidade urgente dos fortes defensores do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas concedidos ao controle do tabaco. Acad\u00eamicos e profissionais de sa\u00fade pediram uma conven\u00e7\u00e3o-quadro sobre o controle de \u00e1lcool; no entanto, antes que essa orienta\u00e7\u00e3o possa ser feita, a comunidade internacional que atua no campo da sa\u00fade precisa reconhecer seu ponto cego.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis representam mais de 72% das mortes globais anuais e agora est\u00e3o recebendo, com raz\u00e3o, maior aten\u00e7\u00e3o na agenda global de sa\u00fade. No entanto, um dos principais fatores de risco para doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis continua sendo negligenciado: o \u00e1lcool. 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